Artigo

 O nome do jogo ainda é Petróleo

 

Tarcisio Lage

26/01/2019

De repente, não mais do que de repente, um obscuro muchacho de 35 anos do baixo clero da Assembleia Nacional da Venezuela, é eleito por seus pares presidente da República no lugar de Nicolas Maduro. Aqui há Otis ou, para ficar num terreno mais popular, tem bububu no bobobo. E esse bububu pode muito bem explodir numa guerra civil.

          Quase imediatamente, o muchacho que tem nome, Juan Guardo, foi reconhecido presidente pelos senhores Donald Trump e Jair Bolsonaro. Mas do outro lado, Maduro também tem as costas quentes com a lealdade do exército, reformado por Hugo Chaves segundo os cânones do movimento Bolivariano, um misto de socialismo a moda cubana e heroísmo dos que combateram o colonialismo espanhol.

       Eu sei que tem muita gente que torce o nariz quando ouve o nome Nicolás Maduro. Ele promove, um pouco menos que Bolsonaro, diga-se de passagem, um festival de besteira que demonstra um despreparo político para conduzir a revolução iniciada por Hugo Chavez e que destronou uma oligarquia corrupta a serviço dos interesses das companhias que controlam as reservas de petróleo na maioria dos países.

​          É, o nome desse jogo se chama petróleo, ainda que o petróleo esteja fadado a se transformar em fonte de energia de segunda categoria em futuro bem próximo.  No entanto, neste mundo de 2019, estima-se a existência 1,4 bilhões de veículos no mundo e a tendência é aumentar. A WordsAuto calcula que o número de automóveis possa chegar a 2,8 bilhões em 2036. Em 1996 eram apenas 670 milhões. Evidentemente, há um número crescente de carros elétricos. A França já proibiu, a partir de 2025 a fabricação de carros a gasolina. Entretanto, o petróleo e o gás natural são também utilizados em usinas elétricas mundo afora, para aquecer casa nos países de clima frio. Há ainda, como alternativa ao petróleo, a produção de combustível com o xisto, do qual os Estados Unidos têm as maiores reservas do mundo. Nos últimos dez anos houve investimentos pesados numa tentativa de tornar o maior consumidor de combustíveis do Planeta auto-suficiente. Entretanto o processo de produção é custoso e altamente poluente. Em dez anos, neca de lucro para os empreendedores, a gritaria das entidades de defesa do meio ambiente é cada vez maior e há sinais que será abandonado. Vem daí, por exemplo, a sanha das multinacionais do petróleo em abocanhar o pré sal brasileiro. 

            O pré sal, entretanto, como o xisto, é muito caro. Restam as reservas de petróleo até que outras fontes de energia menos poluentes estejam disponíveis. E, aí, a Venezuela é a rainha do pedaço, pois detêm a maior reserva do mundo, algo que supera os 300 bilhões de barris. Perto dela, só a Arábia Saudita com sua monarquia corrupta e sanguinária, apoiada com unhas e dentes por Washington. A propósito, na década de 1970, sob a presidência do corrupto Andrés Pérez, o país foi apelidado de Venezuela Saudita devido ao boom das exportações de petróleo por causa do boicote dos países da OPEC. Rios de dinheiro entraram no país, desviados pela corrupção e a sanha das companhias de petróleo americanas. Tudo isso, enquanto a Venezuela integrava o grupo de países com os maiores índices de pobreza no mundo. Perez acabou sendo destituído e condenado em seu segundo mandato, tamanhas eram as mutretas. A eleição de Hugo Chávez, em 1999, foi aplaudida mundo afora pelos movimentos de esquerda como uma revolução que tirava, vamos dizer assim, o petróleo venezuelano do controle das companhias dos Estados Unidos. Os rumos tomados pela chamada revolução Bolivariana, no entanto, podem ser discutidos, mas foi com pleno apoio popular que Hugo Chavez promoveu, através de plebiscito, a nova Constituição permitindo a reeleição do presidente. Expediente, só para lembrar, que Lula recusou ao fim de seu segundo mandato.

​       

          Agora, não há outro nome para isso, está em gestão um golpe com o apoio dos Estados Unidos e do Brasil, entre outros, para derrubar Maduro e colocar em seu lugar o muchacho Juan Guardo. No tabuleiro temos uma população envenenada pela propaganda direitista que toma conta de grande parte do mundo.  É uma incógnita saber até quando os bolivarianos à frente do Exército darão conta de sustentar Maduro.

​   

         Queria ser otimista, mas não creio ser possível. Os interesses em jogo, envolvendo as multinacionais do petróleo junto à onda direitista globalizada, no vai-e-vem da História, são muito grandes. Nesse tabuleiro, Maduro não é mais que um peão ameaçado. Sua queda, entanto, com certeza, vai colocar a Venezuela, outra vez, sob as patas das grandes petroleiras internacionais.

 

 

 

 

 

Os intocáveis

Tarcisio Lage

19/01/2019

 

         Estamos dando muita atenção – sobretudo nas mídias sociais – a ministros e ministras descartáveis. A mais badalada da turma, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humano, Damares Alves, respira fanatismo religioso por todos os poros. Essa gente, no entanto, é como boi de piranha ou bobo preso pelo cangote no meio da praça para ser xingado e apedrejado. Na hora certa, podem ser descartados sem o menor problema. Até o presidente, eleito à custa de um discurso de direita de boteco, inspirado na truculência dos ditadores do golpe de 1964 e nos discursos muito em voga na Itália e Alemanha nas décadas de 1930 e 1940, não está de todo seguro em seu posto. Talvez o vice-presidente saiba mais sobre o assunto.

        Sérgio Moro e Paulo Guedes, além dos ministros militares enfiados goela abaixo, não são descartáveis. Moro anda meio calado, mas dispensa maiores apresentações. Seu plano é dar ares jurídicos a um Estado policial, basicamente aplicando tudo o que fez na Operação Lava Jato, sobretudo a asquerosa denunciação premiada, o dedodurismo, com a qual conseguiu até condenar o ex-presidente Lula sem nenhuma prova concreta. O objetivo confesso de Moro, como Ministro da Justiça,  é o combate ao “crime organizado”. Coloquei aspas porque, dentro desse baú, pode caber mais do que as chamadas facções criminosas ocupadas com o tráfico de drogas. Especificamente, o ex-juiz de Curitiba pode muito bem considerar movimentos sociais como o MST entidades criminosas. Moro é, sem dúvida, o intocável mais perigoso. Sua popularidade, no meio da massa manobrada, é maior do que a do presidente.

 

O outro intocável, Paulo Guedes, é literalmente um Chicago boy. Foi lá, em Chicago, que fez seu doutorado em economia e conviveu com outros seguidores do ultradireitista Milton Friedman, criador da corrente defensora do liberalismo econômico total e definitivo. De volta ao Brasil, o doutor Guedes não encontrou o terreno propício e foi jogado de escanteio pela maioria dos colegas que tinham ojeriza de tudo que cheirasse neoliberalismo econômico. Fez as malas e foi passar uns tempos no Chile de Pinochet onde conviveu com antigos colegas de Chicago adeptos de Milton Friedman. Essa turma, alguns amigos do peito de Guedes,  lhe arranjou uma vaga de professor numa universidade de Santiago. A grande proeza dos Chicagos boys chilenos foi a implantação ao pé da letra do ultraliberalismo de Millton Friedman no país. O ponto alto foi desnacionalizar as jazidas de cobre em 1981. Essas jazidas, nacionalizadas em lei aprovada durante o governo Allende, são responsáveis por 50% das exportações do Chile. Qualquer comparação com as reservas do pré-sal no Brasil pode ser mais que mera coincidência. É plano confesso de Paulo Guedes ir vendendo o pré sal às multinacionais e, com isso, dar um novo golpe contra a Petrobrás.  Novo leilão das reservas. que colocam o Brasil entre os maiores produtores de petróleo, já está marcado para o dia 23 de janeiro. Evidentemente, a liberalização da economia brasileira, sob a tutela de Paulo Guedes, à semelhança do que aconteceu no Chile, vai muito além disso e incluem a literal entrega dos recursos da Amazônia à sanha de mineradoras e do agronegócio.

Finalmente, é preciso ressaltar que tanto Guedes como Moro são claramente apresentados como  superministros, mesmo por seus colegas no Governo. Guedes, mais do que Delfim Neto nos tempos do “milagre econômico” da ditadura, abarca sob suas asas os ministérios da Fazenda, do Planejamento e da Agricultura. O quinhão de Moro é também soberano em sua área. Além do mais, ele recheou, como já dissemos, o Ministério da Justiça com antigos colaboradores da Lava Jato. É também fava contada que Bolsonaro não nomeará ninguém para o STF sem o aval de Moro.

Moro e Guedes, os untouchables do governo. Se eu estiver enganado, ótimo, ficarei até contente.

 

SIGA-ME

  • Facebook Classic
  • Twitter Classic
  • c-youtube