EU, CIDADE

                CAPÍTULO 3

       Davi Pereira enrolou um cigarro de palha sentado num toco de madeira sob a mangueira, enquanto Genoveva continuava com a gritaria da parição dentro da tapera. Matutava que os tempos estavam diferentes, sua mãe tinha parido 14 e ele não se lembrava de ter ouvido alguma vez tamanho alarido. Depois do resguardo pensava em ter uma conversa séria com a mulher para lhe ensinar as normas básicas de bom comportamento, mostrar-lhe que em sua casa, por mais modesta que fosse, ja­mais seria permitido aquele palavrório, aquela falta de respeito. Não excluía a possibilidade de uns tapas, embora não fosse partidário do espancamento de esposas, a não ser em circuns­tâncias muito especiais e aquela parecia ser uma delas. Passara uma hora e os gemidos de Genoveva ressoavam mais fracos, quase sumidos. Davi ouviu um ronco esquisito e, depois, um silêncio que perdurou uns dez minutos. Acabou de fumar seu cigarro e pensou, aliviado, que a parição tinha terminado. En­trou no barraco e presenciou uma cena patética. Genoveva tinha os olhos arregalados e imóveis. A mão direita ainda segurava a tesoura enfiada na enorme barriga, de onde escorria um fio de sangue indo engrossar a poça que jazia no solo. O menino – era menino – não quis sair de cabeça, veio com suas pernas abertas e ficou engalhado na saída. Não se sabe se Genoveva intencio­nalmente enfiou a tesoura no ventre perfurando o pescoço do feto ou se foi um ato involuntário, um movimento brusco gui­ado pela cegueira da dor. Esta indagação não passou pela ca­beça de Davi Pereira que fez o sinal da cruz e disse, olhando para a mulher com mais raiva do que com­paixão:

     – Minha Nossa Senhora, isto é castigo.

     Não perdeu tempo ou, talvez, não quis dar tempo ao espanto e saiu a procura de um lugar para enterrar a mulher e o feto. Encontrou um descampado, local de terras esbranquiçadas onde as árvores eram mais baixas e mais retorcidas do que a média, como se já estivesse sido demarcado para ser cemitério. Davi, na pressa de consumar o irreparável, fez a cova rasa de uns 40 centímetros e enterrou a esposa enrolada no lençol ensanguentado. Sequer pensou em fazer caixão, mesmo por­que os restos de madeira que sobraram da carroça e mais umas tábuas extras que trouxera já estavam reservados para um projeto de mais serventia, a construção de uma canoa espaçosa, com a qual pretendia explorar os contornos do Rio das Tabocas. Não enter­rou a tesoura. Lavou-a e a dependurou no gancho onde se en­contrava antes, pois estava firme­mente disposto a procurar ou­tra esposa e teria o cuidado de encontrar alguém com quadris amplos e resistentes de mulher parideira, como os de sua mãe, que não gritava na hora de colocar gente no mundo.

***

     Rodolfo Militão esteve muito tempo na minha lista de re­serva, embora, não sei porque, sempre relutei em colocá-lo no primeiro time. Estudou fora em colégio de padre e voltou ti­nindo de revolta. Tinha ânsia de vômito só de ver batina em sua frente e quando se refugiava no aconchego dos amigos adorava brandir sacrilégios contra todos os dogmas da igreja.

     – Virgem igual a Maria eu já comi três.

     Talvez ele tenha sido o meu primeiro comunista confesso, mas era de boca pra fora e acho que foi por isso que o deixei encostado na reserva, nunca desistindo da busca de alguém que fosse mais para a via dos fatos. Frei Damião dava-lhe o des­prezo que se dá ao cão que late, mas não morde. Militão, ateu de corpo e alma, nem de longe acre­ditava na bondade do Vigá­rio, elevado à categoria de santo por minhas beatas ou, por ou­tra, poderia muito bem sair da boca do anti-Cristo da Paróquia, o maior destruidor de transformadores das redondezas. O he­rege tinha a impressão de que o franciscano era malvado e que exalava veneno em suas rezas. Mas não saía apregoando uma idéia que poderia fazê-lo alvo de apedrejamento público. Blas­femar para um grupo seleto de amigos, demolir dogmas sagra­dos com sua língua ferina para a turma da cachaça, era uma coisa; atacar o meu Santo, de peito aberto, era outra bem dife­rente. Já era, e bastava, o Diabo de Cachimbo para as comun­gantes da primeira fila. Rodolfo matutava apenas, e era até condescendente, outorgando ao Franciscano o benefício da dúvida: talvez Frei Damião não seja intrinsecamente mau. O desgraçado não parece sentir o menor prazer nas maldades que pratica. Exibe até aquela cara de sofrimento, numa comunhão masoquista com suas vítimas. Ou será ele um grande ator que engana a todos nós?

     A incerteza martelava na cabeça de Militão, mas a verdade é que o Vigário não era nenhum artista da arte do engodo, era só fanático mesmo, parecia coisa de nascença, reforçada por anos de aprendizado. O sofri­mento, o Vigário aprendera no seminá­rio, era essencial para a pureza da alma, para a fortaleza do espírito contra as armadilhas carnais do demônio. O castigo da menstruação, tornando o sexo feminino asqueroso, de cheiro desagradável, igual a queijo podre, no linguajar dos frequentadores de meus botecos, tinha propósitos muito mais profundos do que os biologicamente re­conhecidos. Um alerta, um freio aos que só pensavam no prazer da maldita carne. Frei Damião sonhava com os católicos aplicando muitas das leis puras e duras do Velho Testamento. Queria ver meus ma­ridos obede­cendo ao pé da letra a proibição de manter qualquer contato com a mulher menstruada, mesmo porque o contato carnal é infrutífero neste período, é o mesmo que jogar o sêmen fora, tão condenável como o vício solitário. Nem um copo d’água o marido deve receber das mãos da esposa imunda, pois é imunda que ela está, de acordo com o livro mais lido no mundo. (É preciso checar para ver se é ainda). Quando a mulher tiver fluxo de sangue nas suas partes permanecerá na sua impureza legal durante sete dias. Todo o que a tocar, ficará imundo até à tarde. Todo móvel sobre o qual ela se deitar ou assentar durante seu período de mênstruo será impuro. O Vigário relia com sa­tisfação esta passagem do Levítico, pois era a confirmação de sua tese sobre o corpo, que deixava sua cabeça - dizia Militão aos amigos de boteco - cheia de minhocas. O sofri­mento era uma das mui­tas ar­mas, um instrumento valioso, que Deus colo­cava nas mãos de seus solda­dos aqui neste vale de lágrimas para o combate sem trégua contra a luxúria, no entender do Vigário o maior trunfo do demônio ou, como o Frei Ernesto muito modernamente classificava, o canhão de laser de Satanás, capaz de penetrar no recôndito mais fundo dos miolos para despertar o monstro do desejo. Onde íamos parar, lá ia o Vigá­rio de arma em punho contra o Cape­ta, esconjurando as ideias atravessadas que iam na cabeça dos degenerados, horrorizando-se por dentro, franzindo o cenho por fora e dizendo em voz alta para as paredes da Casa Paroquial:

     – A menstruação, o castigo imposto para reafirmar que o sexo é só para a reprodução, já é enaltecida em algumas rodas. Onde é que vamos parar?

     Ainda bem que Frei Damião não viveu o suficiente para presenciar o espetáculo degradante, haveria de dizer, das aulas de sexologia no meu Ginásio, enquanto a televisão exibia pro­pagandas de ob com a imagem de desinibidas mocinhas di­zendo como agora era tranquilo o ciclo menstrual; mãe de fa­mília, toda sirigaita, saracoteando no vídeo para mostrar seu absorvente, fininho, forma anatômica perfeita, ajustando direi­tinho na vagina, não deixando escapar um pinguinho de sangue sequer. Estava limpa, portanto, livre da imundície bíblica. Ima­ginem, o Vigário lendo um tal de Dr.Gerard Swang explicando que, pouco antes da regra, elabora-se um verdadeiro coquetel de cheiros, casando o azedo-ácido da vagi­na com o sebo mus­culoso da vulva, açúcar e sal, glicose e ácido lá­tico, iogurte e mel. Mas que, apesar de tantas comparações, a fragrância vul­vovaginal é de uma inimitável especificidade. Fragrância? Frei Damião classificava aquele odor, apesar de só conhecê-lo em teoria, de catinga, mau cheiro, carniça, fedentina, bodum, mor­rinha, inhaca, cc ao quadrado, mais, elevado à milésima potên­cia, castigo dos céus, queijo podre, jamais poderia ser a fra­grância apregoada pelo Dr. ­Swang, utilizando a linguagem com­plicada do depravado de Viena, capaz de fazer os homens, até pais de família, ficarem de pau duro ou simplesmente pos­suídos pela danação. Mas não vamos colocar o carro na frente dos bois. Já na época de Frei Damião, em Belo Horizonte, Rio e São Paulo, para o horror do franciscano, estavam sendo ensina­das nas faculdades as teorias do austríaco pervertido. E havia um zunzum muito esqui­sito de mulheres querendo colo­car as manguinhas de fora. O Lar Católico, mais de uma vez, denun­ciara a existência de algumas feministas afoitas, reeditando aquela puta­ria do princípio do século XX, que deu no que deu, direi­to de voto para as mulheres que não foram criadas para tomar decisões, pois não têm condições emocionais para isso, a estrutura do cérebro é diferente, têm menos massa cinzenta. Igualdade de direitos! O Vigário não entendia porque o papa não ex­comungava toda aquela gente, embora soubesse que não se pode sair excomungando tudo que é peca­dor, senão não so­bra ninguém. Frei Damião, formado dentro do dogma católico do livre arbítrio, estava certo de que a beleza das mulheres, instrumentos de tentação, era uma prova de resistência, um teste da força de vontade do espírito contra a carne. Deus, en­tretanto, na sua misericórdia, na sua bondade infinita, quis tor­nar mais fácil para o homem a prova e daí a fedentina da mens­truação. Abençoava o mau cheiro. Pelas mulheres bonitas o Vigário tinha um misto de piedade e ódio. Piedade, porque não tinham a culpa, pelo menos até prova em contrário, de terem sido sele­cio­na­das pelo demônio para servir a seu odiento pro­pósito corruptor. E o ódio, claro, era natural, o ódio que todo católico tem de manifestar por tudo que tenha a marca de Sata­nás. Odiava a beleza, não a mulher-instrumento, que podia até ser uma boa pessoa, desde que submissa a seu papel de pro­criado­ra da espécie e soubesse esconder com muito pano as curvas odientas. Estava aí, justamente, a grande contradição teológica, que deixou Frei Damião tantas noites sem dormir. É que as mulheres, mesmo as bonitas, apesar daquela coisa odi­enta e malcheirosa entre as pernas, tinham de ser considera­das, também, seres humanos, criaturas de Deus, e deviam ser, por­tanto, amadas. Ele queria separar as duas coisas, mas era muito difícil. Queria odiar a beleza feminina, com todas as suas for­ças, e, ao mesmo tempo, amar de modo cristianíssimo a mulher vítima de seu próprio corpo moldado por Satanás. Queria, e nisso ele temia não estar sendo suficientemente modesto, que elas (especial­mente Matilde, a ilusão do inferno passeando por minhas ruas) tivessem a força de vontade que lhe sobrava, a capacidade de esmagar a tentação, de transformar o desejo car­nal em disciplina espiritual, de submeter o sexo aos ditames da moral, ao invés de sair por minhas ruas com uma escassez in­justificável de panos, balançando os quadris provocadores e sorrindo com mil promessas indecorosas. Infeliz­mente, a neces­sidade da pro­criação exigia a prática do coito, o vil contato carnal, a mais animalesca das atividades humanas. Não era por nada o preceito bíblico de que o homem e a mulher, mesmo lavando as partes, permaneciam imundos durante todo o dia da fornicação. Por que as pessoas tinham de sentir prazer naquilo? Mesmo quando não é a época da menstruação a vagi­na excita­da produz uma baba asquerosa. Com ânsia de vômito, só de pensar nisso, Frei Damião não entendia e, se entendia não aceitava, como é que alguém podia pensar numa coisa dessas como se fosse a melhor coisa do mundo. Até algumas mulheres velhas, já livres pela idade do castigo da menstruação, entregavam-se ao coito com os maridos que mal podiam ter uma ereção e, mesmo assim, ainda iam fornicar em outras alcovas, como tão bem atestavam as pasquinhadas anônimas de Juvêncio. Ao ou­vir tais barbaridades no confessionário, mulheres já passadas dos anos dizendo que ainda gostavam daquilo, pais de família de cabelos brancos confirmando as intrigas de Juvêncio, Frei Damião tinha vontade de sair de chicote em punho e aplicar na vítima de tanto pecado o número de chibatadas que ela tinha em anos de depravação. Mas se resumia a dizer, num grito contido porque estava no confessionário:

     – Pecado, pecado, pecado. É tempo de oração, tempo de espe­rar a morte. O caminho da depravação leva ao inferno. Arre­penda-se, reze três terços de joelho e prometa nunca mais forni­car. A fornicação é um castigo. Ela só se justifica com o fim único e exclusivo da reprodução da espécie entre casais ungi­dos pelo sacramento do matrimônio. A senhora já passou da época. É terra onde semente não germina mais. Reze, pro­meta: fornicar, nunca mais.

     A última ereção do Vigário foi durante a adolescência, mas sua vocação sacerdotal foi muito mais forte e ele a conteve a custa de uma dúzia de ave-marias, sem necessidade da nefanda masturbação. Nunca bateu uma sequer, para ele o orgasmo era a morte. Aprendeu, como ninguém, a controlar a hidra do desejo, protegeu-se com uma couraça invulnerável aos ataques sa­tâni­cos, mesmo se Satanás viesse armado com o mais potente ca­nhão de laser do pecado carnal. Nossa mãe, tudo isso para dizer que nem a mais gostosa das mulheres - terá sido a Marylin Monroe? - era capaz de despertar um fiapo de te­são no Francis­cano. Seu nervo maldito mole ficou até o dia de sua morte no asilo de velhos, longe, muito longe de minhas fronteiras. Nunca esteve na cabeça de Frei Damião sentir prazer naquela coisa que além de nojenta era ridícula. Duas pessoas adultas, às vezes até formadas, entregarem-se a ge­mi­dos animalescos, o pênis baboso enfiando e saindo na vagina mais babosa ainda, exa­lando aquele cheiro asqueroso de dar náusea e não prazer. Pior ainda, mil vezes mais ridículo ainda, quando a mulher não se conformava com o papel passivo que lhe foi reservado por Deus e começava a mexer os quadris e a gemer, mais forte que o homem, imagem suprema da degrada­ção. Um longo sinal da cruz. Cristo, com o roteiro adaptado, lhe dizendo: 

     – Perdoai-os, Vigário, eles não sabem o que fazem.

     E havia, claro, outras perversões, outras indignidades, conta­das em sussurros de culpa no confessionário e que Frei Damião preferia nem pensar nelas. Melhor seria, para a pureza do mundo, se os casais encarassem o coito como um sacrifício, uma submissão compulsória à baixeza da carne, o fel amargo e mal cheiroso que deviam tomar, obedientes aos desígnios de Deus, visando a procriação e tão somente a pro­criação. Frei Damião muitas vezes não conseguia evitar seu maior pecado: o sacrilégio de pensar que talvez Deus tivesse errado quando concedeu a todos os seres humanos a graça do livre arbítrio. Pelo menos pode­ria ter sido mais seletivo, repartindo este dom apenas para os fortes de espírito, os guias do rebanho sub­me­tido à fé. Mas e aí, onde estaria o mérito? Os desígnios de Deus eram para serem aceitos sem discussão, tentava Frei Damião colocar um ponto final em suas dúvidas inadmissíveis e repri­mia, com toda a força, o pensa­mento de que se tivesse o poder, se não fosse apenas um instrumento de Deus, tal­vez ele não perdoasse os pecadores inveterados que fornicavam por puro prazer.

*

     Matilde era realmente um pedaço de mau caminho, no dizer de Fabiano Beija Mão, meu maior conquistador, sempre exi­bindo seus cabelos glostorizados, tentando imitar Clark Gable, utilizando o dom do livre arbítrio para se atolar, inapelavel­mente, no poço do sexo e da vulgaridade, cujo fundo era o in­ferno. Para o Vigário, daquele jeito, nem mil anos de purgatório livrariam Fabiano da fornalha do Diabo. Aqui na Terra, com todos aqueles trejeitos, Fabiano, não poucas vezes, caía, tam­bém, no atoleiro do ridículo, Casanova fora do tempo, galã no lugar errado (es­tava pensando que eu era cidade de gandaia), espécie em extinção. Se eu comungasse com Frei Damião até diria um graças a Deus se pudesse vê-lo extinto de minha fauna. Matilde divertia-se com a vulgar cretinice do Beija Mão com suas frases ensaiadas de um Dom Juan sem coragem de abrir seus reais sentimentos, que eram de tédio e frustração por nunca ter tido a coragem de romper minhas fronteiras.

     – Bela senhorita que passa faceira, permita-me beijar-lhe a mão.

     Matilde, colocando a máscara do deboche, estendia-lhe a mão e de­pois do beijo melado saía saracoteando pracinha afora. Que pecado!

     A filha de meu negociante era, naqueles anos que antecede­ram a minissaia e a pílula (a pílula da sem-vergonhice, diria Frei Damião), a grande tentação de Frei Ernesto, o canhão de laser de Satanás, certeiro na mosca inquieta do desejo do auxi­liar de Frei Damião. Os seios avantajados, mas de modo algum desproporcionais ao conjunto, mais embaixo sobressaindo uma bunda redondinha, macia como um balão, ai, pecadoramente convidativa, apertada numa saia mostrando todos os contornos, Matilde infernizava as noites do padreco em sonhos que só podiam ser censurados depois que ele acordava, tentando se recompor à custa de muita oração. Frei Ernesto, entretanto, sem a força de vontade fanática do Vigário, não exalando, como ele, pelos poros, o repelente natural de todos os desejos, nem acor­dado conseguia conter os efeitos daninhos que lhe provo­cava a imagem de Matilde em seus vestidos cola­dos na pele e via, na nudez com que a imaginação lhe premiava, os seios de bicos duros, o corpo delgado sem gorduras extras e as nádegas re­bo­lando a cada passo. E, se fechava os olhos com mais força, para tentar espaventar a imagem, o que surgia era o sexo de Matilde, sentia o odor de iogurte e mel e um leve roçar dos cabelos pú­bicos da moça em sua boca sedenta. De nada valia o suspiro profundo, o sinal da cruz, a jaculatória gemida, o valha-me Nossa Senhora, a imagem permanecia e o embriagava num êxtase. Matilde devia ser mesmo agente do Inferno, pois sabia perfeitamente de seu fascínio sobre o pobre do padre e não fazia outra coisa senão acentuar sua beleza, balançando a ca­beça para esvoaçar seus longos cabelos e (quem pode aguentar isso?), sorrindo, com um leve toque de malícia, toda vez que passava diante daquela cri­atura presa dentro da batina e acor­rentada ao voto de castidade.

     – Bom dia, Frei Ernesto, como vai o senhor?

     E beijava sua mão, um beijo molhado, estalado. Não era beijo de dar em mão de padre.

     À primeira vista, Matilde seria a versão feminina do Fabiano Beija Mão. Não era. Tinha a vantagem de ter melhores atribu­tos, quase visíveis por baixo de seu vestido justo nos contornos, e de não ser uma alma massacrada pela frustração. Estava feliz com seu reinado de sedução dentro de minhas fronteiras. Quando menstruava, gostava de se trancar no banheiro para ver o sangue sair vermelho e grosso, e não disfarçado de azul como os anúncios pela tv iriam mostrar anos depois. Achava bonito, imagine Frei Damião, achava bonito! E depois, quase sempre, se masturbava, sem se importar com o sangue melando seus dedos e o odor - fragrância? - que inundava o banheiro. Seduzir, para Matilde, era um es­porte, um jogo que representava um fim em si mesmo, sem veleidades de domínio absoluto sobre suas vítimas. Um jogo onírico, o prazer pelo prazer, contente em ver o rubor nas faces de Frei Ernesto quando passava por ele rebo­lando os quadris, satisfeita estava com os fluidos emanados de seu corpo, extasiada pelo próprio cheiro, em harmonia com as pessoas que a rodeavam, em comunhão com minha pracinha e seus namorados de mãos dadas, e até se via abençoada com seu sexo, sem nenhum complexo de castração, curtindo o jorrar da menstruação numa época em que não havia absorventes des­cartáveis e sim toalhinhas de panos que acabavam sempre en­cardidas, como os coadores de café, mesmo se lavadas com o fanatismo de limpeza da mãe de Pedro Maria. Matilde nunca reprimiu, jamais, o tremular excita­do de sua vagi­na durante os bailes de fim de semana ou quando passeava pelas ruas e se sentia ad­mirada e deseja­da. Matilde gozava ainda de uma van­tagem a mais sobre o Beija Mão: não padecia, como Fabiano, a cruel expectativa do dia em que o pênis pudesse murchar, aba­tido pela impotência antes da hora numa época em que o Viagra nem sequer era cogitado. Fabiano sabia que jamais poderia ter uma velhice digna, ou, sejamos pragmáticos, pelo menos su­portável. Quando desaparecesse um pouco de seu charme, de sua idiota lábia donjuanesca, os amigos também desaparece­riam e ele se veria só, computando os feitos de uma existência vazia, enfrentando os olhares que já lhe eram dirigidos com um misto de zomba­ria e desdém. Nunca passou de um mísero con­quistador de fachada, que nem procriar conseguiu. Estarei eu sendo muito dura com meu conquistador? Mas é que o coitado acabou mesmo foi morrendo só, num quarto de hotel, de câncer, porque nem para morrer foi original.

*

     A Frei Damião, Matilde também não passava despercebida. Só que, a ele, sabedor de como utilizar o livre arbítrio, ela des­pertava só ódio e asco, mistura­dos com aquela piedade a que era obrigado por força da ética cristã. O Vigário estava ciente do fascínio que a danada, sem nenhum remorso de ser bela e tentadora, exercia sobre seu subalterno e se enfurecia por não ter consigo nas lides da paróquia uma criatura mais forte, me­nos vulnerável às armadilhas de Satanás. Se Matilde não fosse a flor mais bela de minha burguesia, filha do dono de minha maior loja de tecidos, homem te­mente a Deus e às instituições, o Vigário já te­ria, há muito tempo, tomado uma pro­vidência para se livrar daquele demônio. Proibi-la de entrar na igreja, de assistir à missa com seus vestidos indecentes e o sorriso peca­minoso, expulsá-la da cidade, excomungá-la, queimá-la viva, se necessário, para arrebatar do Demônio sua pobre alma prisio­neira daquele corpo moldado com todo o capricho nas profun­das do Inferno. (Que é que é isso, Frei Damião, toda criatura é de Deus. O Cão não tem fábrica de criar gente!) Rodolfo Mili­tão entre parênteses, berrando para os compinchas da cerveja. O certo é que o Vigário não alimentava nenhuma esperança: Ma­tilde não tinha a força de vontade suficiente no manejo de seu livre arbítrio para sufocar o fascínio pecaminoso de seu corpo. Nestes casos, foi a recomendação que fez à mãe de Matilde, a solução prática seria interná-la num convento, cobrir seu corpo endemoninhado, dos pés à cabeça, com a veste negra da fé. Mas Matilde não quis, fraca, sem fibra para resistir à vã ilusão do prazer carnal, exercendo seu fascínio endiabrado até sobre o pobre do pai, que fazia todas as suas vontades, importando do Rio de Janeiro seus vestidos apertadinhos. As rezas da mãe de nada adiantaram, os quilos de hóstias comungadas não puderam mudar a sina da filha predestinada ao fogo do inferno.

     – Convento, mãe? Credo! Nem morta.

     Não havia nada de mais patético do que as confissões de Frei Ernesto, contando seus podres ao Vigário, desnudando seu fascínio por Matilde, na calada da noite, os dois sentados num banco da imensa igreja vazia, onde se podia ouvir, ressoando, o cair de um alfinete. Geral­mente ficavam sentados num dos ban­cos da frente, ao lado do Altar Mor, Frei Damião com as mãos cruzadas e o semblante cerrado, Frei Ernesto cabisbaixo, sem forças para levantar o olhar, mãos no peito e os pecados fluindo nos decibéis de um cochicho. Matilde estava em todas as con­fissões: a real, dengosa e sorridente em seu vestido colado, e a outra, a dos sonhos, mais atrevi­da ainda, mais descarada­mente provocadora, quadris e seios expostos, veneno, doce veneno, mortal como a aranha que envolve sua presa, sem saída, na teia de desejos reprimidos. O Vigário, ou­vindo tanta fraqueza da carne, tanta submissão do espírito à corrupção da matéria, ba­lançava a cabeça em protesto e exprimia sem parar seu um-um de desaprovação.  

     O suor escorria das têmporas de Frei Ernesto, a boca seca, a voz embargada pelo remorso com o soluço da culpa recortando as palavras. Sua alma imortal estava em perigo e não podia fugir à obrigação de contar tudo a Frei Damião. Não só os so­nhos de quem dorme, onde sempre há a desculpa de um incons­ciente incontrolável, mas também os sonhos de quem está acor­dado e possuído. Tremia, não apenas de remorso pelo que fi­zera, mas pela certeza de que iria pecar de novo, de que não pode­ria resistir, que era fraco e indigno da batina que usava.

      – Padre, não consegui suportar e me masturbei. Pensando nela, atormentado por sua imagem, padre! Me Masturbei!

     – Inadmissível! Inadmissível! 

     A pronta resposta do Vigário, punhos cerrados e em alta voz, retumbando como uma bola repicando no meio da igreja vazia. Acalmava-se com o pensamento de como Deus era real­mente misericordioso a ponto de perdoar aquele servidor re­lapso, incapaz de resistir ao chamado do corpo que, no fim, sempre fede.

     A teoria de Frei Damião a respeito do vício solitário era simples, cristalina. A masturbação é um pecado maior, um ato mais inadmissível do que o coito, mesmo quando este é prati­cado sem nenhuma intenção reprodutiva, só para satisfazer a maldita carne. No coito, é o Demônio, no seu supremo disfarce de mulher, que arras­ta o indivíduo para a correnteza mortífera do pecado. Na masturbação é o próprio homem, no exercício de seu livre arbítrio, utilizando de forma corrupta o espírito, que cria a imagem suja do sexo a ser­viço dos desígnios maculados de Satanás. Mas­turbar-se é entregar-se de corpo e alma ao De­mônio, carne e espírito submeti­dos como um todo ao pecado. Dedo em riste, o Vigário oferecia ao subalterno duas alternati­vas, nenhuma outra. Masturbação nunca mais, fechar comple­tamente os olhos do espírito à ilusão do sexo, esquecer, ex­ter­minar de seu pensamento Matilde em seus vestidos apertadi­nhos. Ou, então, ser excomungado e enfrentar pela eternidade o fogo do inferno.

      – E pronto! – concluía Frei Damião, fazendo um sinal de absol­vição a contra gosto e esmurrando o banco na retumbância do estrondo de uma bomba no interior da igreja vazia.

*

     A solução encontrada por Frei Ernesto foi de se confessar, sempre que podia, com o bispo, Dom Serafim, que morava numa cidade vizinha, situada a uns 40 quilômetros. Um ab­surdo, não ter sido eu a escolhida para a sede do bispado. Mas deixa pra lá, não vou reiniciar aqui meu rosário de queixas. Dom Serafim era tolerante, sabia muito bem como era difícil do­mar o monstro, que no seu caso era ao contrário. Monstro ao contrário? Explico. Eram os seminaristas que atraíam Dom Serafim, gostava dos garotos com um amor que ia muito além do paternal, só depois de muito velho, com o remorso corro­endo seus últimos dias, é que conseguiu frear tais impulsos, que poderiam levá-lo a ser colega de Fabiano na churrasqueira do Capeta. Ele também tinha sonhos, via-se, todo paramentado, passando em revista os novos seminaristas, com uma fita mé­trica, medindo o tamanho dos cacetes dos rapazes numa fila que se perdia no horizonte. Acordava sobressaltado segurando o próprio pênis, rezava, fixava os olhos no crucifixo em cima da cama, querendo absorver para si a dor que Cristo teria sentido, mas não adiantava, voltava a dormir, pois tinha muito que fazer, esperava-o a fila de rapazes, perdendo-se no infinito. Simpati­zava com Frei Ernesto; Deus ia absolvê-lo, como tão bem per­doava seus sonhos. Achava-o atraente, não era sua culpa. E o absolvia, sem sequer passar penitência.

     – Meu filho, você tem apenas de prometer que tudo fará ao seu alcance (frisava bem a palavra alcance para vencer a ten­tação.) Vá em paz, o perdão de Deus é infinito.

     E beijava o escapulário, sentindo uma estranha sensação de que fosse algo de carne e osso, sem sequer ver a retirada do confessando, porque tinha os olhos cerrados, tentando alcançar, assim, o perdão divino, que, felizmente, era infinito.

     Mais uma vez reconfortado, Frei Ernesto saiu do bispado e tomou a jardineira de volta sabendo que, à noite, Matilde o estaria esperando em sonho.

 

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