IX

SEDE NOVA

 

             Eu já tinha desistido de descobrir o grande segredo de Fihinha, seu ponto fraco, seu calcanhar de Aquiles. Tia Selena, morta, não poderia revelar-me nunca mais o que havia descoberto e que a deixou tão segura de que poderia ter sempre superado a irmã. Já não sobrava mais ninguém para me informar de primeira mão. O número de prédios novos que iam surgindo em Santo Antônio das Tabocas era o sinal mais evidente de que a morte estava ceifando as últimas pessoas da geração que mantivera contato direto com Fihinha. A regra se generalizava: quando falecia o patriarca ou matriarca, as casas eram derrubadas para dar lugar a vivendas mais modernas. A casa de Amadeu e Adelaide era das poucas que resistiam de pé à avalanche reformadora. A caçula da família, Alzira, nos seus oitenta e tantos, continuava dizendo “não” às propostas de compradores e à pressão dos filhos que queriam porque queriam construir ali uma casa moderna.

             - Não, não, só depois que eu morrer. Não insistam.

             Melhor para os morcegos, que tinham ninhos entre o teto e o forro de palhinha. Ouvia-se mesmo, durante a noite, um ruído esquisito e os hóspedes que não estavam acostumados assustavam-se com a correria de, não se sabia o quê, sobre o teto, misturando-se com o brandir das asas dos morcegos. Soube-se, depois, que era um gambá que fizera sua morada bem em cima da sala de jogo de Dona Adelaide. O diabo do bicho aguentou reformas e mais reformas e só sucumbiu quando o teto de palhinha foi substituído por outro de madeira. Três anos depois da morte de Alzira, a casa foi demolida. Ergueu-se, em seu lugar, um edifício de cinco andares, exibindo no térreo lojas e butiques e nos andares de cima quartos naquilo que se transformou no Hotel das Tabocas, o mais moderno da cidade, o único com letreiro luminoso, cintilando no topo de meu “Empire State”. A cidade que ia surgindo estava, definitivamente, divorciada da imagem de Fihinha.

***     

             Mesmo antes da desfiguração total de Santo Antônio das Tabocas, com seus edifícios e ruas asfaltadas, minha pesquisa estava se tornando cada vez mais difícil. Sobravam apenas, aqui e ali, alguns velhos dementes, incapazes de acrescentar uma vírgula ao que eu tinha acumulado com a série de entrevistas com a parentela inteira. De tia Alzira só ouvi a repetição do que as outras tinham me dito; a maioria do que contou era de segunda mão; ela era muito jovem - tinha menos de sete anos, quando a tragédia aconteceu. Não presenciou a cena, estava na casa da cidade, embora, talvez pela força de tanto ouvir a Felícia dizer, estivesse convicta de que Fihinha fora uma santa. Tia Alzira, também, era contra o perdão, queria o assassino pagando o crime nas profundas do inferno.

             - Na churrasqueira de Satanás, tia?

             - Com pimenta no cu.

             Alzira, diferente de Felícia, herdara de dona Adelaide a arte do palavrão.

             Não havia praticamente mais ninguém para entrevistar. A memória de Fihinha esvanecia-se no vendaval das transformações. Talvez sejam as casas que mantêm a memória de seus moradores gravada em suas paredes. Derrubar casas seria como destruir o passado que elas encerram. Uma queima de arquivos. O casarão de Santo Antônio das Tabocas acabou não resistindo ao ímpeto de substituição do velho pelo novo. Não esperaram Tio Flúvio morrer para que os filhos demolissem a sede da fazenda. Cinco anos depois da morte de sua primeira mulher, dona Celeste, meu tio casou-se com uma jovem de 46 anos. Jovem, sim, pois vivemos num mundo de relatividades e Flúvio, quando subiu ao altar pela segunda vez, estava vergado em seus 78 anos.

             Exigência da nova mulher:     

             - Neste casarão feio eu não moro. Quero casa bonita, geladeira, fogão de gás e televisão colorida.

             A demolição foi completa; aproveitou-se somente o terreno e parte do alicerce. O salão de truque foi ampliado, tomando o espaço da varanda, que se estendeu para fora. As duas janelas de madeira, com suas tramelas obsoletas - a maldita e a outra - foram substituídas por um janelão corrediço de vidro. Os quartos foram redimensionados: ao invés de oito pequenos, apenas seis, mais amplos; dois deles - o de Flúvio e um outro para hóspedes - transformados em suítes com banheiro e vaso sanitário. Talvez não exista nada como uma privada para atestar o grau de modernidade de uma fazenda no interior de Minas Gerais; privada com descarga, a água fresquinha, encanada, depois de sugada da velha cisterna remodelada por obra e graça de um motor diesel, a bosta correndo por uma tubulação até uma enorme vala a mais de dois quilômetros de distância para que a catinga não incomodasse os habitantes do casarão. Nada mais do arrastar de penicos, um debaixo de cada cama e, de manhã, a tarefa ingrata, quase sempre a cargo de Sá Belarminda, de esvaziá-los (sorte quando havia só mijo) no buraco da privada construída do lado de fora, entre o casarão e o pomar. Ao invés do vaso sanitário, o que havia era um quadrado cimentado, o orifício no meio por onde se faziam as necessidades, de cócoras, diretamente na fossa. Quando estava quase cheia, a merda transbordando, a solução era construir uma nova e aterrar a velha. Uma privada só, para tanta gente, não era suficiente; a maioria dos empregados cagava ao ar livre, num matagal no fundo do pomar e que foi apelidado por Juca Trindade de O Bosque do Cu de Fora. Em dias de caganeira generalizada muita gente do casarão não tinha outra alternativa senão correr para o Bosque. Amadeu, pensando na privacidade, mandou construir um cercado inteiramente reservado às mulheres, delimitando uma área para cada usuária. Pelo menos, uma vez por ano, todos os territórios ficavam literalmente ocupados; era o dia de tomar lombrigueiro e purgante, óleo de rícino que fazia todo mundo botar abaixo até as tripas. Fihinha era a única que não tomava, apenas fingia; era imune às lombrigas, talvez porque não comesse carne de porco - menu quase diário em Capim Alto -, preferindo as frutas frescas do pomar. Mas nem por isso, de vez em quando, deixava de frequentar o matagal pelo simples prazer de defecar ao ar livre. Havia outros matagais, sem cercados, democraticamente abertos a todos os gêneros, circundando os casebres dos agregados. Privada com fossa era coisa de rico, além de ser perigoso, pois, se a tampa cedesse (e, às vezes era de madeira que apodrecia), o cagão ou a cagona despencaria direto dentro da merda.

             À noite, quando o condenado da gameleira fazia dueto com a coruja, somente Amadeu, Adelaide, Sá Belarminda e Fihinha tinham coragem de usar a privada com a ajuda de uma lamparina ou uma vela. O vento, às vezes, apagava a chama, provocando um vendaval de palavrões de Adelaide. Felícia sempre acordava e rezava uma jaculatória, pedindo que Santo Antônio intercedesse junto a Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de perdoar os impropérios da mãe:

             - Trem excomungado, lamparina de bosta, nem cagar a gente pode mais!

             Fihinha era a única capaz da proeza de sair de lamparina em punho, mesmo nas noites de ventania, sem que a chama se apagasse. Sá Belarminda tremia nos alicerces quando via aquilo, certa de que a menina de tranças era muito mais poderosa do que ela. Já tinha empregado todas as rezas e benzeduras conhecidas, mas a diaba da lamparina apagava a qualquer golpe de aragem. Sá Belarminda não gritava com a goela solta como a patroa, apenas resmungava submissa e ia cagar no escuro.

             As irmãs de Fihinha, especialmente a Felícia, preferiam segurar o intestino e padeciam, por isso, de cólicas e prisões de ventre. Afinal, o penico era só mesmo para urinar - se não fosse assim, ninguém iria aguentar o fedor que se espalharia pela casa todas as manhãs. Todo mundo no casarão recordava-se da noite da caganeira, que empestou os quartos por mais de uma semana. Foi uma borrada só por causa de um mingau de milho verde estragado. A privada e os penicos passaram toda a noite ocupados; Maria das Graças não aguentou e cagou na cama; Felícia quase morreu desidratada no dia seguinte.

             Quando foi inaugurada a nova sede de Capim Alto, também não era mais possível ouvir os gemidos do condenado, pois sua morada, a frondosa gameleira, fora derrubada para permitir a passagem de uma estrada nova. As matas que circundavam a fazenda, tão apreciadas pela coruja que fazia dueto com o fratricida, foram substituídas por plantações de eucaliptos para alimentar carvoeiras, brotando como cogumelos em tronco apodrecido. Empestava-se o ar, infernizando a vida de pássaros e, quem sabe, até de almas do outro mundo. Dizia-se que foi a contragosto, e até mesmo com certa dor de consciência, que Flúvio submeteu-se à nova mulher e mandou destruir a sede de Capim Alto. Mais do que Alzira, Flúvio tinha a memória de Fihinha bem gravada no fundo de sua mente; ele a vira morta ainda com o corpo pendido na janela, os olhos cinza arregalados. Tinha pouco mais de nove anos e a imagem cristalizou-se para sempre em seu espírito. Quando o entrevistei, pouco antes de sua morte, na sala ampliada do agora novo casarão de Capim Alto, ele quase chorou ao me dizer:

             - Na véspera de morrer, aqui mesmo, ela me colocou no colo e falou: "Fluvinho, cuide bem de Capim Alto. Vai ficar tudo em suas mãos. A fazenda, a casa, não deixe que sejam destruídas."... Nunca a vi tão triste, ela sabia que a desditosa estava à espreita.

             Aticei sua dor de consciência:

             - Tio, por que o senhor destruiu o antigo casarão e construiu este novo? O senhor acha que Fihinha ia aprovar?

              Minha provocação não surtiu o efeito esperado. Tio Flúvio olhou-me firme e respondeu-me na maior calma do mundo:

             - Ia não. Ela aprovou.

             - Como assim?

             - Todo mundo acha que foi por pressão da Matilde que reconstruí a sede de Capim Alto. Pois não foi, não. Foi Fihinha quem deu a autorização.

             - É, foi? Como?

             - Num sonho. Eu me vi ainda menino sentado em seu colo e ela me dizia: "Fluvinho, tá na hora de derrubar este janelão azarento".

***

             Inacreditável, Fihinha pedindo para derrubar o casarão da tragédia. Será que os mortos se cansam de ser memória? Seja lá o que for, o fato é que a nova Santo Antônio das Tabocas, exibindo seu progresso de fachada, pisoteando sua história, definitivamente não me agradava. Cheguei a pensar que estava na hora de colocar um ponto final na história de Fihinha, escrevendo no lugar do “fim” um frustrante ponto de interrogação. Fihinha cansara de ser lembrada? Interpretei que, ao mandar destruir a janela maldita, ela queria mergulhar no esquecimento. Foi, portanto, surpreendido e ao mesmo tempo alegre, que eu a vi surgir esfumaçada no meio de um sonho perguntando se não queria entrevistá-la.

             - Claro que quero! - respondi, antes que o medo sufocasse a curiosidade.

             Ela me tomou as mãos e disse com aquela ironia conhecida de ouvir contar:

             - Venha!

             Fui e gelei-me de medo quando ela me fez entrar no casarão de Capim Alto, passando pelo mesmo alpendre - que eu só conheci já velho - com os ladrilhos desgastados. Apesar da névoa - por que será que sempre há nevoeiro nos sonhos? - notei que o piso era novo, o casarão inteiro era novo, mas não o novo casarão, era o novo antigo, tínhamos dado marcha a ré nos relógios. Ao entrarmos na sala onde se jogava truque, o medo foi maior quando senti um cheiro de cigarro de palha, como se dona Adelaide acabasse de passar por ali. Creio mesmo ter ouvido um arrastar de chinelos de alguém se afastando pelo corredor que ia da sala, passando pelos quartos, até a cozinha. Fihinha debochou de meu pânico com seu sorriso zombeteiro e mandou-me sentar numa cadeira de palhinha, meu rosto iluminado pelo lampião de tela, estampando agora mais pavor do que curiosidade. A claridade era intensa e eu podia, agora, sem esforço, admirar todos os detalhes do rosto de Fihinha. Não desmentia a fama, era realmente a mais bela de todas as irmãs: os olhos muito vivos, apesar do cinza claro fantasmagórico, refletia uma luminosidade cegante, um laser concentrando a luz do lampião. Sua boca tinha a proporção certa, os lábios carnudos, sem exageros, e de um vermelho natural, de sangue, não de batom. As tranças, que chegavam à cintura, brilhavam à luz do lampião como se fossem de prata; senti no ar um perfume suave saindo de sua pele, odor de gente, natural. O nariz, um pouco arrebitado, era como o último toque naquela escultura de beleza, talhada em carne e osso. Não era retrato, não era imagem.

             - Pode começar a perguntar, o que é que ocê quer saber?

             Soltei um grito agudo e dei um salto da cama. Estava molhado de suor, apesar de estar batendo o queixo e tremendo de frio. Pior ainda, estava extremamente frustrado por não ter conseguido, de puro medo, fazer a entrevista mais importante de minha vida. Enquanto gritava, eu a vi desaparecer com um semblante de puro menosprezo, balançando o rosto em sinal de reprovação. Creio mesmo ter sentido o toque de sua trança em meu rosto, uma leve chicotada de reprimenda à minha covardia. Decidi que, se houvesse uma próxima vez. eu não fugiria da raia. Iria entrevistá-la, iria descobrir todos seus segredos e mistérios. Tive até a ideia, talvez maluca, de me deitar na noite seguinte com um gravador debaixo do travesseiro. Quem sabe eu não poderia registrar meu sonho? Gravar uma entrevista com Fihinha, sem intermediários!

             Pois fui mesmo me deitar com as galinhas na noite seguinte: não eram ainda nem oito e meia. Antes que terminasse de fechar os olhos, Fihinha reapareceu, desta vez, possivelmente para aguçar ainda mais meu pavor, metida em sua camisola branca, exibindo o rombo no peito, vermelho púrpuro e um cheiro de sangue fresco no ar. Espantei-me, não apenas com a cena diante de meu olhos, mas porque, definitivamente, não havia tempo para que eu já estivesse dormindo. Fiz das tripas coração para espantar o assombro que se apossava de mim e perguntei com uma voz sumida, como a de meu avô:

             - Mas isto é sonho?

             Fihinha cravou sua vista em meus olhos, o sorriso zombeteiro estampado na face, e respondeu-me com outra pergunta:

             - E tem importância?

             Lembrei-me de meu tio Tião, convicto de que ela sempre tinha razão. E realmente tinha. Não era o momento de procurar o limite entre o sonho e a realidade; o importante é que eu tinha, diante de mim, a fonte de minhas indagações pronta a saciar toda minha sede de curiosidade. Por onde começar a entrevista? Saber primeiro de sua infância? Ir logo perguntando sobre seu ponto fraco? O tiro - como é que vira a morte chegar? Depois de tanto tempo ela já teria perdoado o louco que a matou por puro amor? Tentei fazer a primeira pergunta, mas fui traído pelas cordas vocais, que se recusaram a atender ao comando fraco de meu cérebro tomado pelo pânico. Fihinha aproximou-se, tocou meu rosto com suas mãos gélidas e disse, enquanto desaparecia, como que sugada pela janela da tragédia:

             - Cagão!

 

INÍCIO DA PÁGINA

SIGA-ME

  • Facebook Classic
  • Twitter Classic
  • c-youtube